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domingo, 2 de octubre de 2011


Segundo a literatura científica, pode-se considerar as doenças genéticas como uma das condições mais democráticas da Humanidade. Assombram a todas as populações, não respeitando, em seu conjunto, sexo, etnia, cor ou condição sócio-político-econômica. Todavia, há algumas anomalias genéticas que acometem, preferencialmente, determinados grupos populacionais ou étnicos com frequência especialmente altas, mesmo apresentando-se raras em outros povos. Isolado é o termo utilizado para se referir a um grupo populacional de tamanho variável e que se apresentaram separados do restante da espécie humana no decorrer de certo número de gerações. Isso ocorre por variadas barreiras, quer sejam geográficas, políticas, sociais ou outra, levando a uma alta frequência de casamentos endogâmicos. O presente artigo tem como objetivo esclarecer os acadêmicos do curso de Biomedicina e de outros curso da área da saúde a respeito de doenças como Tay-Sachs, Gaucher, Nielmann-Pick e Bloom.
INTRODUÇÃO
Os séculos gritam. O grito seu é pasmo, é medonho e ecoa por entre as trevas do códon humanóide.
Em grupos populacionais isolados durante algum período da história, as frequências de determinado gene em especial pode se tornar demasiadamente ou especialmente alta por dois fenômenos, segundo Roberto Muller (2000):
a)"Endocruzamento ou Casamentos Consanguíneos: - uma vez que, como se sabe, os casamentos consanguíneos aumentam a probabilidade de homozigose entre os filhos resultantes deles e que, nos isolados, conclui-se que a probabilidade e doenças recessivas raras nos demais grupos populacionais seria maior nesse grupo.
b)Deriva Genética: - quando determinados genes são eliminados ou tem sua frequência aumentada devido a variações aleatórias nas frequências gênicas ao longo das gerações."
Entre os isolados mais conhecidos estão a comunidade Amish e Huteritas nos Estados Unidos da América. A comunidade judaica, por razões históricas, por muito tempo constituiu isolamento e, como consequência, apresenta frequências muito altas de certas doenças que as demais populações. Esse fato merece ser melhor estudado.
ORIGENS DA POPULAÇÃO JUDAICA
Os judeus são um povo caucasóide do Oriente Médio. Sua história é seu orgulho e grande motivo de culto em sua religião; está descrita na Torá, o Antigo Testamento da Bíblia Cristã.
Os judeus foram palco de uma longa história de perseguições em várias terras, resultando numa população que teve frequentemente seus números e suas distribuições alteradas ao longo dos séculos. Os limites em ser ou não judeu gera um grande debáte sócio-político que parece não ter fim.
1.Os patriarcas e o Êxodo:
De acordo cm a tradição judaico-cristã, a história judaica começa com o chamado de Deus ao hebreu Abraão. Abraão teria sido um fiel seguidor do monoteísmo em uma época de idolatria, o que fez com que Deus fizesse prometesse dar descendência à Abraão e fazer desta o povo eleito deste Deus. Esta promessa se cumpriria com o nascimento de Isaque, que daria origem à Jacó e que este seria pai de doze filhos, os quais seriam os pais das doze tribos de Israel. Após a imigração para o Egito devido a uma grande fome, a família de Jacó cresce em número e influência, o que leva à sua escravização por parte dos egípcios, e o surgimento de um libertador, Moisés, que sob a mão de Deus tira o povo do Egito, entrega-lhes às leis divinas e dá aos filhos de Jacó um sentido de "nação". Após uma peregrinação de quarenta anos no deserto, este povo teria, sob o comando de Josué conquistado a terra de Canaã.
A narrativa do Êxodo no entanto não tem encontrado respaldo fora dos escritos bíblicos. Mesmo os documentos egípcios da época (conforme calculado pelo Tanakh) encontrados até agora não tem fornecido informações a respeito do êxodo israelita. No entanto, alguns estudiosos tendo encontrado menções aos hapiru, têm acreditando que este termo se refira aos hebreus.
2.Os juízes e a monarquia unida:
Os israelitas conquistaram algumas regiões de Canaã, mas ainda assim não mantiveram uma unidade nacional. Cada tribo mantinha suas leis e costumes e uniam-se ou combatiam entre si de acordo com as suas conveniências. Geralmente cada tribo era governada e julgada por juízes, pessoas que seriam determinadas por D-us para tal cargo.
Posteriormente, os israelitas querendo imitar outras nações, pedem um rei, e Saul, escolhido por D-us torna-se rei de Israel. Mas sua rebeldia ao seguir os mandamentos da Torá faz com que perca o reinado, e após alguns contra-tempos, Davi, um pastor-guerreiro de Judá é escolhido rei. Aqui apresentam-se a primeira vez a unificação das tribos em uma única nação, e inicia-se o período áureo da história judaica, que será consolidado com o reinado de Salomão, filho de Davi.
3.A divisão dos reinos:
Com o descontentamento constante das tribos sob o domínio de Salomão, o reino se divide em duas partes sob o governo o filho de Salomão Roboão e Jeroboão: o reino de Judá ao sul e o reino de Israel ao norte. Diversas crises políticas e religiosas acabam levando à decadência dos dois reinos: o reino de israel é destruído pelos assírios ,enquanto o reino de Judá é destruído pelos babilônios. No exílio, o povo israelita começa a tomar consciência do seu papel no "Plano de D-us" e, após alguns anos, retornam para sua terra e reconstroem o Templo, reorganizando suas Escrituras. Com estes fatos encerra-se a história do período das Escrituras Hebraicas.
4.A Era Talmúdica
Com o retorno de algumas comunidades judaicas para a Judéia , uma renovação religiosa levou à diversos eventos que seriam fundamentais para o surgimento do Judaísmo como uma religião mundial . Entre estes eventos podemos mencionar a unificação das doutrinas mosaicas , o estabelecimento de um cânon , a reconstrução do Templo de Jerusalém e a adoção da noção do "povo judeu" como povo escolhido e através do qual seria redimida toda a humanidade. A comunidade judaica da Judéia cresceu com relativa autonomia sob o domínio persa, mas a história judaica tomará importância com a conquista da Palestina por Alexandre Magno em 332 a.C. .Com a morte de Alexandre , o seu império foi dividido entre seus generais ,e a Judéia foi dominada pelos Ptolomeus e depois pelos Selêucidas ,contra os quais os judeus moveram revoltas que culminaram em sua independência.
Com a independência e o domínio dos Macabeus como reis e sacerdotes , surgem as diversas ramificações do judaísmo da época do Segundo Templo : os fariseus ,os saduceus e os essênios.As diversas intrigas entre as diversas divisões do judaísmo levou à conquista da Judéia pelo Império Romano.
5.Eras Medieval, Moderna e Contemporânea:
Florescimento da cultura judaica na Espanha, massacre dos judeus em Granada, expulsão da Alemanha e emigração para a Europa Oriental, massacre dos judeus na Espanha, massacre de cristãos-novos em Portugal, o retorno dos judeus para a Inglaterra, emancipação na América, emancipação na França, fundação da Universidade Hebraica em Jerusalém, Leis de Nuremberg, Segunda Guerra Mundial, criação do Estado de Israel, primeira guerra árabe-israelense, prisão e condenação do oficial nazista Adolph Eichman, Israel retira-se da Península do Sinai.
A POPULAÇÃO JUDAICA E AS DOENÇAS GENÉTICAS
A pergunta é: por que certas doenças são mais prevalentes na população judaica? Como descrito, nos isolados ocorrem dois fenômenos que aumentam as frequências de determinados genes raros.
Em se tratando da comunidade judaica, dois estudos (Goldschmidt, 1960 e Frafir, 1972) avaliaram a frequência de casamentos consanguíneos em Israel e encontraram altas frequências.
Por conseguinte, as frequências são as praticamente mesmas quando se estudam judeus de diferentes países, como Alemanha, Polônia, Itália, França e Israel.
PRINCIPAIS DOENÇAS DOS JUDEUS ASHKENAZIM
1. TAY-SACHS
É uma doença autossômica recessiva descrita pela primeira vez em 1881 por Tay e, vários anos depois, independentemente, por Sachs. É causada por mutações no gene Hex A, localizado no braço longo do cromossomo 15, na porção q23 q24. Tais mutações resultam na ausência da sub-unidade a do RNA mensageiro que, por sua vez, leva a deficiência de uma isoenzima da B-Hexosamicidase, o que leva a uma deficiência na degradação lisossomal do gangliosídeo GM2.
Segundo um artigo da biomédica geneticista Lygia da Veiga Pereira, publicado no São Paulo Medical Journal (2001):
"Na população judaica Ashkenazita a incidência da doença é de um para cada 3.500 nascimentos, e a freqüência de portadores é de um para cada 29 indivíduos. Programas de triagem de portadores da doença de Tay-Sachs reduziram a incidência da doença em 90% nas populações em risco de diversos países. A população judaica brasileira é estimada em 90.000 indivíduos. Atualmente não há programa de triagem populacional da doença de Tay-Sachs nessa população."
A síndrome é caracterizada por um retardo no desenvolvimento neuro-psíquico-motor cujo início pode ocorrer por volta dos 3 a 5 meses de vida, como uma leve fraqueza motora e uma reação exagerada ao som, geralmente na extensão súbita dos membros, simulando o refleso de Moro (Zam Mustacchi, 2000). Logos são acrescentados, a esses fenômenos, a paralisia, a demência e a cegueira com a morte ocorrendo geralmente aos dois ou três anos de idade. Segundo Sergio Peres, não há, até o momento, tratamento eficaz.
O diagnostico é feito com base nos fenômenos descritos e através da presença de uma mancha cinzento-esbranquiçada ao redor da mácula, devido a presença de células ganglionares com presença de lípides, formando uma mancha vermelho-cereja ao exame de fundo-de-olho. O diagnóstico pode ser confirmado por técnicas de hibridação in situ fluorescente (FISH).
O diagnostico pré-natal pode ser feito pela determinação da atividade da Hexosaminidase A em células fetais obtidas das vilosidades coriônicas ou por amniocentese. Entretanto, as técnicas de DNA tem-se mostrado mais eficazes.
2. DOENÇA DE GAUCHER
Descrita por Philippe Gaucher, em 1882, é bastante comum e se caracteriza pelo acúmulo de um glicolipídeo (o glicocerebrosídeo) nas células do baço, do fígado e do osso. É causada por mutações do gene que codifica a enzima glicocerebrosidase, no braço longo do cromossomo 1, em sua porção q21 q31. A herança é autossômica recessiva, sua incidência global é desconhecida, porém se estima que seja de 1:7.000 ou 1:10.000 judeus Ashkenazim.
Segundo Jovino Ferreira, em um artigo publicado na Revista Brasileira de Hamatologia e Hemoterapia (2008):
"Tal deficiência induz ao acúmulo deste glicolipídio, levando às alterações histológicas, que são especialmente evidenciadas nos órgãos ricos em elementos do sistema imunológico monocítico-fagocitário (fígado, baço, linfonodos e medula óssea). Foi classificada em três tipos (1, 2 e 3), tendo como base a presença e a gravidade de envolvimento neurológico. O tipo 1 ou não neuropático (adulto) é a forma mais comum da doença, correspondendo a 99% dos casos. É especialmente prevalente entre os judeus Ashkenazi com uma incidência de cerca de 1:450 indivíduos e de 1:40.000 na população geral. O tipo 2 ou forma neuropática aguda (infantil) caracteriza-se pelo início precoce e rapidamente progressivo dos sintomas na infância (entre quatro e seis meses) e pelo acentuado comprometimento neurológico. O tipo 3 ou neuropático subagudo (juvenil) manifesta-se com distúrbios neurológicos no final da primeira década de vida e tem uma progressão mais lenta do que a forma aguda.
O diagnóstico da DG é estabelecido por teste que demonstra a deficiência da atividade da enzima glucocerebrosidase nos leucócitos e fibroblastos da pele cultivados, com um resultado que geralmente expressa atividade 30% menor que a normal. Transmitida por herança autossômica recessiva, definida pela presença de dois alelos mutantes para o gene da beta-glicosidase localizado na região q21 do cromossomo 1. A presença de dois alelos mutantes deste gene serve como confirmação do diagnóstico. A biópsia de medula óssea pode demonstrar a presença de células de Gaucher, entretanto, as pseudocélulas de Gaucher podem muitas vezes levar a diagnósticos errôneos, sendo imperativo a dosagem enzimática para o diagnóstico."
Segundo o mesmo artigo, onde foram estudados casos da anomalia no Estado de Santa Catarina, o tratamento da maioria dos pacientes sintomáticos era essencialmente de suporte clínico, envolvendo o uso de analgésicos e transfusões sanguíneas. A partir de 1990 foi possível demonstrar respostas clínicas animadoras com glucocerebrosidase derivada de placenta humana (alglucerase) e que tinha os macrófagos como alvos.Esta tinha um limite de fornecimento e foi substituída por uma forma de enzima desenvolvida a partir da técnica do DNA recombinante, a imiglucerase, capaz de suprir a produção em grandes quantidades e com excelentes resultados.
A pesquisa dos geneticistas brasileiros (anteriormente citados) divulgou tais conclusões:
1. A doença de Gaucher tipo 1 é a forma clínica mais comum. Anemia, trombocitopenia, hepatoesplenomegalia e osteopenia, associadas à deficiência enzimática da glicocerebrosidase, são as características mais freqüentes dos pacientes com doença de Gaucher em Santa Catarina.
2. O alelo N370S é o mais freqüente e está relacionado com o tipo 1. O alelo L444P em homozigose sugere letalidade precoce. O estudo do genótipo auxilia no suporte clínico e é necessário para o aconselhamento genético.
3. A TRE é efetiva e segura no tratamento da doença de Gaucher tipo 1.
DOENÇA DE NIEMANN-PICK
É uma doença autossômica recessiva cujo gene se encontra no braço curto do cromossomo 11, em sua porção p15.1 p15.4, e que apresenta cinco fenótipos que:
TIPO A: doença neurodegenerativa infantil. Fatal aos 3 e 4 anos;
TIPO B: acomete o Sistema Retículo-Endotelial, com pouco ou nenhum envolvimento do Sistema Nervoso Central. Os pacientes costumam chegar à idade adulta em boa saúde;
TIPO C: inicia-se no primeiro ou segundo ano de vida co alterações neurológicas lentas. A hepatoesplenomegalia é menor que a que ocorre nas formas anteriores. A sobrevida é variável, porém é fatal antes dos 20 anos;
TIPO D: descrita em apenas uma família na Nova Escócia. Inicia-se aos cinco anos, assemelha-se ao tipo C e tem evolução protraída;
TIPO E: é raro; causa uma hematoesplenomegalia e não há envolvimento do Sistema Nervoso Central.
Os sintomas mais comuns são: perda da capacidade de falar, de andar, dificuldade na atividade celular, dificuldade ao comer, insuficiência respiratória e desconexão do meio.
O diagnóstico da infermedade de Niemann-Pick se confirma com os estudos enzimáticos e com uma biópsia na pele do paciente, ao mesmo tempo há estudios moleculares que determinam o tipo genético da enfermedade.
O tratamento é: atividades fisioterapêuticas, melhoramentos nutricionais e tratamento das crises epiléticas.
SÍNDROME DE BLOOM
É uma doença rara, autossômica recessiva, cujo gene está localizado em 15q27.1, caracteriza-se por um retardo grave do crescimento pré o pós-natal associado a lesões cutâneas faciais causadas pelas luz do Sol, além de face característica, infertilidade, predisposição ao câncer, instabilidade cromossômica e imunodeficiência.
OUTRAS DOENÇAS MAIS FREQUENTES EM JUDEUS
Outras doenças incluem a Disautonomia Familiar e a deficiência de 21-hidroxilase, alem da Distrofia de Torsão e a Síndrome de Gilles de La Tourette.
CONCLUSÃO
As etnias isoladas tendem a apresentar predisposição para distúrbios cromossômicos raros em outros grupos populacionais. Tay-Sachs, Gaucher, Niemann-Pickk e Bloom são doenças comuns em certos grupos judaicos, embora jamais descritas em outros povos.
Judeus Ashkenazim devem ser encaminhados à uma consulta de Aconselhamento Genético, pois:
"A arte do aconselhamento repousa na determinação da melhor época e circunstância para o fornecimento de cada informação, que pode ser complexa, mas é essencial"
- J. Hall
REFERÊNCIAS
Mustacchi, Zam. Genética Baseada em Evidências: síndromes e heranças. São Paulo: CID Editora, 2000.
Ferreira, Jovino S., Ferreira, Vera Lúcia P. C. and Ferreira, David C. Estudo da doença de Gaucher em Santa Catarina. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., Fev 2008, vol.30, no.1, p.5-11. ISSN 1516-8484
Martins, Ana M. et al. Tratamento da doença de Gaucher: um consenso brasileiro. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., Jun 2003, vol.25, no.2, p.89-95. ISSN 1516-8484

Cashrut ( by www.torah-channel.com)




" CASHRUT "
D-us realmente se importa com o que eu como?
Cashrut esta voltando. Atraves dos Estados Unidos e onde quer que vivam os judeus, as pessoas estao descobrindo ou fortalecendo seu compromisso com as normas alimentares de trinta e tres seculos do povo judeu.
Se perguntassemos a um judeu comum, que viveu cerca de cem anos atras, se ele observava a Cashrut, a provavel resposta seria: "Naturalmente! Eu sou judeu!" Para as nossas bisavos, manter-se Casher era um ato tao natural quanto ao ato de comer. Poucas pessoas se afastavam dessa pratica, mesmo que houvesse deslizes em sua observancia sobre outros aspectos.
Na transicao da Europa para as Americas e depois das revolucoes sociais destes seculos, a situacao inverteu-se quase se completamente. Muitos de nos fomos criados pensando que os judeus que ainda observavam Cashrut eram exodicamente anacromicos, algo assim como as "amish" com seus cavalos e charretes. Assumimos que Cashrut era uma precaucao de saude obsoleta, validas nos tempos anteriores a refrigeracao, mas atualmente sem significado. Nosso grande mestre e profeta Moshe Rabenu era, entao, presumivelmente uma especie de administrador primitivo da fiscalizacao de saude e alimentacao, e as proibicoes de misturar leite e carne ou de consumir carne de porco e ostras, de acordo com este novo decreto de comer Casher, tinha a ver com bacterias, triquinose, medidas sanitarias e coisas do genero. O fato de que alguns dos maiores cerebros da historia-Rashi, Maimonides, Nachmanides, Rabi Yitschac Luria (o Arizal) e os sabios do Talmud-disseram claramente outra coisa, nao nos impressionou absolutamente. (A maioria de nos nao tinha sequer ouvido falar deles).
Se alguem nos tivesse dito que Cashrut e um mandamento da Tora, outorgado ao povo judeu por D-us no Monte Sinai, com a intencao de ajudar a formar uma nacao, cuja missao era e ainda e trazer Divindade ao mundo, teriamos ficado um tanto incredulos, e ate mesmo indignados.
"O que voce quer dizer com trazer Divinidade ao mundo?" - poderiamos ter retrucado. "Porque deveria D-us se preocupar com o que como? O que tem a comida a ver com isso?"
Tais perguntas ainda foram a espinha dorsal das objecoes modernas a Cashrut, e possibilitaram a ideia absurda de que a origem das leis alimentares e higienicas.
As perguntas podem ser validas, mas elas nao sao judaicas. No mundo europeu de nossos ancestrais, a questao de D-us se preocupar ou nao com o que comemos nao foi levantada - nao porque eles eram menos inteligentes ou sofisticados do que nos, nem porque eles nao tinham refrigeradores, mas porque seu mundo era totalmente judaico. Era permeado de valores judaicos e ideias judaicas sobre a natureza do homem, D-us e o Universo.
Uma mudanca no meio ambiente acarretou uma transformacao total no pensamento. Estamos imersos em uma cultura que assume uma perspectiva a qual e, as vezes diametralmente oposta a do judaismo. O pensamento nao-judaico permeou de tal forma a civilizacao ocidental que chegamos a pensar em seus valores como neutros ou mesmo universais. Mas eles nao o sao.
O Rabino Zalman Posner, um erudito e autor contemporaneo, decorre sobre a nacessidade de "falar ingles, mas pensar judaicamente". A maior parte de nossas ideias sobre D-us e religiao, ressalta ele, origina-se de fontes nao-judaicas. Armados com uma educacao judaica de nivel, quando muito, elementar (e muitas vezes absolutamente nenhuma), passamos anos absorvendo conhecimento nos saguoes da escola superior. Mesmo o conhecimento de judaismo e filtrado atravez das tendencias culturais da Filosofia, Literatura e Historia Ocidentais.
E dificil, portanto, para a mente contemporanea compreender exatamente por que o judaismo faz tamanho alarde com assuntos como comer e beber, necessidades basicas que sao compartilhadas nao apenas por toda a humanidade, como tambem pelos animais.
A prece, a meditacao, a caridade e um estilo de vida ascetico, sao reconhecidos por todos como sendo "assuntos religiosos". De acordo com o enfoque predominante, a alma e espiritual e sagrada, enquanto o corpo material e desprezivel (o reverso da medalha e o hedonismo, onde o proprio corpo e cultuado). De uma forma ou de outra -porque deveria D-us preocupar-se com o que como?
A Tora nos diz: "Conhece-lo em todos os teus caminhos." A lingua hebraica nem mesmo tem uma palavra para "religiao" o enfoque judaico e que, nao apenas no Shabat e nas Festas, e nao apenas na oracao, mas em todos os momentos temos o poder de santificar a existencia cotidiana. O lar judaico e chamado de "santuario em miniatura"; a mesa e considerada um altar.
Cada um dos mandamentos, muitos dos quais envolvem objetos fisicos (alimentacao Casher, velas de Shabat, Tefilin, Mezuza), serve como canal de conexao entre um judeu e D-us. Cada Mitsva cumprida fortalece este elo. A existencia fisica, demonstrada pelo corpo, nao e desprezada nem glorificada por seu proprio merito, mas elevada e refinada a servico da alma. O proprio mundo fisico e um veiculo para trazer santidade ao mundo.
Cashrut oferece uma oportunidade para sermos realmente humanos, pois apenas o homem pode exercer a opcao e a autodiciplina ao satisfazer os desejos fisicos.
Nutricao espiritual
Podemos entao encarar o "ser judeu" como uma experiencia sagrada, da qual observar a Cashrut e uma parte integral.
Nossos grandes Rabis e Sabios nos dizem que Cashrut e ainda mais do que isto. Indiscutivelmente e a Mitsva de maior alcance, pois afeta o corpo inteiro, a mente, o coracao, e a psique da pessoa.
As leis concernentes aos animais Casher e nao-Casher sao apresentadas no terceiro livro da Tora. Nenhuma razao e dada para explicar, por exemplo, por que um animal que rumina e tem os cascos fendidos e Casher, enquanto um animal que apresenta apenas um destes sinais nao o e. Nao ha nenhuma logica aparente para fazer uma destincao entre um tipo de animal, ave ou peixe, e outro.
O grande comentarista Rashi escreveu no seculo XI, citando fontes talmudicas de muitos seculos antes, que a proibicao de carnes, tais como a de porco e uma dessas Mitzvot que devem ser aceitas exclusivamente pela fe, pois nao tem, em alguma hipotese, qualquer base logica humanamente compreensivel (que dizer das teorias sobre refrigeracao!). Outras Mitzvot, embora admissiveis para o intelecto humano, tambem sao observadas por serem preceitos da Tora.
Ao aceitar a Tora no Monte Sinai, o povo judeu disse duas palavras que ecoam a nossa consciencia e em nosso enfoque do cumprimento dos mandamentos "Naasse Venishma" - "Faremos e ouviremos". isto significa que aceitamos as mitzvot como outorgadas de D'us, e que, apos termo-nos comprometido em cumpri-las procuraremos entao, compreende-las. A tradicao judaica as vezes nos oferece esclarecimentos, nao para nos fornecer uma razao para cumprirmos as mitsvot, mas para satisfazer nosso desejo de entender, ate onde for possivel dentro das limitacao do intelecto humano.
A coisa mais proxima que temos na Tora como explicacao das leis sobre animais Casher e a afirmacao que segue imediatamente a enumeracao daquelas leis: "Pois Eu sou o Senhor vosso D'us; santificai-vos, por tanto, e sede santos, pois santo sou Eu" (Vayicra XI: 44). O povo judeu foi escolhido no Monte Sinai para tornar-se "um reino de sacerdotes e uma nacao sagrada". A razao da alimentacao Casher e que ela foi projetada para fazer refinamento e purificacao para o povo judeu.
Os alimentos que comemos sao absorvidos pelo corpo, penetrando nossa carne e nosso sangue, e afetando diretamente todos os aspectos do nosso ser. As aves de rapinas e os animais carnivoros tem o poder de influenciar aqueles que os come com atributos agressivos, e estao entre os alimentos proibidos pela Tora. Para um judeu, o alimento nao-Casher embota a mente e o coracao, reduzindo a capacidade de absorver conceitos da Tora e mitsvot, inclusive mesmos aquelas mitsvot que podem ser entendidas pela inteligencia humana. Os alimentos proibidos sao citados na Tora como uma abominacao para a alma divina, elementos que sao subtraidos de nossa sensibilidade espiritual. A pessoa se torna menos sensivel aos sentimentos de Divindade e menos capaz de entender conceitos Divinos. Ao contrario, quando a pessoa come alimentos Casher, a sua receptividade a Divindade se intensifica.
O corpo e o unico meio atraves do qual a alma se expressa. "Assim como o artesao nao pode fazer seu trabalho sem as ferramentas adequadas" - escreveu o cabalista do seculo XIII, Rabi Menachem Recanati - "tambem a alma nao pode cumprir sua tarefa sem um corpo que coopere; e assim como faz uma grande diferenca para qualquer trabalho de qualidade se um artesao possui ou nao ferramentas de precisao, e muito importante para a alma humana se o corpo e feito de material fino ou grosseiro. Mesmo a luz brilha mais forte atraves de uma boa luminaria, e as mesmas arvores produzem os frutos diferentes de acordo com o solo em que foram plantadas".
Algumas pessoas estao tao harmonizadas com os efeitos espirituais de Cashrut que os alimentos nao-Casher, literalmente nao existem para elas. Rabi Nachum de Tchernobyl, um famoso Rebe chassidico de uma geracao interior, certa vez, nao conseguiu enxergar um copo de leite que estava diante dele, pois, como se descobriu depois, aquele leite foi entrege por um fazendeiro nao-judeu, e seu produto nao tinha sido devidamente supervisionado.
Há muitos exemplos para ilustrar o efeito da alimentaçáo Casher sobre a sensibilidade espiritual do povo judeu. Certa vez aconteceu que uma comunidade judaica do Egito escreveu a Maimonides, o famoso filósofo judeu do seculo XIII, conhecido como o Rambam. A visão moderna daquela época, da filosofia aristotélica, fez com que muitos judeus ficassem "perplexos" com sua própna fé.
Os judeus egípcios voltaram-se ao Rambam para uma explicaçao filosófica de um dos princípios fundamentais do judaismo. O próprio Rambam havia formulado aqueles princípios - certamente o grande filósofo sena capaz de fornecer uma explicaçao adequada. Entretanto, o Rambam recusou-se a responder a carta. Ele explicou a um discípulo que um esclarecimento filosófico nao seria necessário caso as pessoas daquela comunidade nao tivessem co ntami n ado su as mentes, comendo alimentos nao-Casher. Sua incapacidade de aceitar aquele conceito em particular, citado na carta, nao tinha sentido, u ma vez que tin ham como certa a Torá. Eles nao puderam admitir aquele conceito específico, explicou MaimGnides, porque ocorreu um declínio geral em sua sensibilidade espintual.
Os esforços de muitos rabinos contemporâneos para convencer u m judeu especifico a nao contrair casamento misto ou a náo se convertera uma outra religiao, cae m ce rtas vezes em ouvidos moucos. Nenhum argumento A suficientemente bom, nao importando o quao Iógico e belo seja, e nenhum apelo A bastante comovente, simplesmente porque a pessoa entorpeceu suas "antenas judaicas" comendo Taref (náo-Casher).
Centelhas Divinas
Os critérios chassídicos, baseados nos ensinamentos místicos do Rabi Yitschac Luria, explicam por que a influência da alimentaçao Casher a tao poderosa. Assumimos como certo o fato de que precisamos comer para viver. Porem, se a alma dá vida ao corpo, entao por que precisamos de nutriçao externa? Por que precisamos comer? Os filósofos gregos fizeram a mesma pergunta, mas não encontraram uma resposta satisfatória. A questão se complica ainda mais quando consideramos que somos mais dependentes de materia inanimada - ar e água - do que de plantas, e ainda mais de plantas do que de animais. A hierarquia da Criaçao parece invertida; normalmente, deveríamos esperar que, quanto mais força vital aparente em alguma coisa, mais vida aquilo seria capaz de conceder. "Nem s6 de pao vive o homem, mas da palavra de D-us" (DevarimVIII:3) - e uma insigne afirmaçao da Torá. A explicaçao óbvia deste vesículo a que o homem exige uma dimensao espiritual em sua vida, e nao deveria viver apenas para comer, beber e saciar os desejos físicos. mas isto tambem pode ser Iterpretado de maneira bastante literal: nao e o próprio alimento que dá vida, mas a centelha da Divindade - a "palavra de D-us" - que está nos alimentos. O sistema digestivo extrai os nutrientes, enquanto a Neshamá, a alma, extrai a centelha Divina que se encontra na natureza. Estas "centelhas" provêm de uma fonte de Divindade mais elevada ainda que a Neshamá do homem. A energia Divina em cada molecula de alimento é o que realmente nos dávida. O alimento Casher possui uma poderosa energia que confere força espiritual, intelectual e emocional à Neshamá judaica. As "centelhas" contidas nos alimentos nao-Casher por outro lado, estao enraizadas numa fonte espiritual profana. E por isso que os alimentos nao-Casher têm um efeito tao insidioso. Na época dos eventos que antecederam Purim, o povo judeu, na Pérsia, causou a ocorrência de um decreto celestial contra eles, pois haviam comido alímentos nao- Casher no banquete do rei. Houve outras Mitsvot que eles neglígenciaram, mas Cashrut era a chave. Mordechai, que juntamente com a rainha Ester, trouxe-lhes a redençao, permaneceu firmemente Casher, e foi o único que mereceu ser chamado Yehudi- judeu. "E assim como a redençao foi realizada naqueles dias, o cuidado
meticuloso com a Cashrut trará a redençao em nossos tempos" (vide Rashi, Devarim XXXIII:19).
Uma palavra as mulheres judias
A cozinha assume uma nova dimensao quando pensamos na tremenda responsabilidade que implica supnr refeiçoes Casher para a familia. O bem-estar espintual das crianças, do mundo, dos hóspedes e, por extensão, de todo o povo judeu, está nas maos da mulher judia. Muito embora uma investigaçao completa e uma supervisao continua sejam necessánas para que um produto comercial seja declarado Casher, nenhum Mashguiach (supervisor de Cashrur) supervisiona as despensas ou vigia as tigelas e panelas utilizadas na cozinha de uma mulher judia. A responsabilidade ~ adequada, consistente com o papel central desempenhado pela mulher na sobrevivencia do povo judeu durante quatro mil anos. O judaísmo tradicional reconhece isso, mas onde idéias alieníge nas se infiltraram, onde o conhecimento judaico se esvaneceu, vemos um crescimento dos aspectos publicos e cerimoniais do judaísmo, às custas d s Mitsvot do lar e da mulher. A mulher judia literalmente desaparece. Três Mítsvot especialmente confiadas as mulheres judias afetam o alicerce e a existência do povo judeu. Elas sao: a) o acendimento das velas de Shabat, simbolizando a observância do Shabat; b) a separaçao de uma porçao de massa, chamada Chal~. simbolizando a Cashrut; e c) a imersao numa Micve, representando as leis da pureza conjugal . Enquanto o estudo da Torá e a observancia de outras Mitsvot sao princípios importantes na vida de uma muIher judia, estas três Mitsvot demonstram o conceito totalmente judaico de que cada aspecto da vida esta adequadamente enquadrado na esfera da Divindade. Atraves destas Mitsvot, ajudamos a pavimentar o caminho para o termino do exílio judaico entre as naçoes, pois como explica o Lubavitcher Rebe Shlita, a preparaçao para o Mashiach e a punficaçao do mundo material em si. Nossos sábios disseram que "pelo merito das mulheres justas, fomos redimidos do Egito." Da mesma forma, o Lubavitcher Rebe afirma que a redençao deste exilio sera, em grande parte, atraves dos esforcos das mulheres judias de hoje. Acaso D-us se importa com o que como? A conexáo de Cashrut à essência da alrna judaica, em cada individuo e no povo em sua totalidade, fornecerá a resposta. D-us, de fato, importa-se com o que como!

Shana Tová 5774! Que seu nome seja escrito no livro da vida!

Shalom